Ileides Muller

Feliz é o poeta que traduz a vida e reinventa a rotina.

Textos


BOLSA – ARTIGO DE PRIMEIRA NECESSIDADE
 
Para a mulher, bolsa não é um simples acessório. É artigo de primeira necessidade, sua própria extensão. O ato da compra constitui-se numa ação difícil, porém envolvente, quase um ritual. Diante de tantos modelos, para todas as ocasiões, na loja a mulher examina uma a uma cuidadosamente, acaricia, até ensaia um passeio imaginário buscando olhares de aprovação para este ou aquele modelo. Está decidida a adquirir, ou melhor, a adotar uma companheira, confidente, amiga e guardiã de seus mais íntimos segredos, de fatos e momentos que precisam sobreviver ao tempo e ao esquecimento traideiro. Não é nada fácil escolher uma dentre as clássicas, modernas, esportivas; pretas, brancas, douradas, prateadas, coloridas, transparentes; com babados, fivelas, tranças; com fechos de zíperes, botões, até sem fechos; confeccionadas em couro, tecido, palha, pedrarias, material sintético ou reciclado; com dimensões grandes, médias, pequenas, pequeninas; com alças largas, estreitas, longas, curtas ou sem alças; ricas em divisões internas e externas e, ainda, com o imprescindível e amado espelho. Há mulheres que preferem as pequenas, mas para serem usadas dentro das grandes, permitem maior organização, dizem.
Não, não podem ser compradas como “coisas”, objetos quaisquer. É preciso empatia, um olhar de “fica comigo”, uma atração física e emocional, uma relação quase humana. Há que ser especial.
Realizada a escolha vem a alegria da apresentação mútua, do primeiro passeio juntas, a exibição para as amigas e a busca de elogios. A bolsa se transforma, então, no visual completo da mulher, no seu “mundo”. Passa a conhecer e a guardar segredos impressos em retalhos de papel, números de telefones, remédios, rifas, bilhetes de loterias, aparelho celular, pen drive, chaves, documentos reveladores da idade, cartões, carnês de pagamentos, notas ou cupons fiscais de compras, cartões de vendedores desconhecidos, endereços de clínicas, escova de dente, fio dental, óculos de sol, protetor solar, orações para todas as causas, batom, creme, perfume, dinheiro (pouco), caneta, receitas, dietas, balas, fotos e uma porção de outras intimidades que exigem periódicas e demoradas faxinas internas.
Perdê-la é perder o norte na travessia do tempo. É perder-se.
Bolsa de mulher é propriedade inviolável. Abri-la sem permissão constitui crime de invasão de privacidade. É quebrar sua imagem. Descobrir sua essência. Desvendar seu mistério.
Mulher se compõe de corpo, alma e... bolsa.

(Imagem: internet)
Ileides Muller
Enviado por Ileides Muller em 07/08/2017
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