Ileides Muller

Dormi semente, acordei flor. É dia de poesia!

Textos


COMPRA-SE UM LIVRO
A leitura que me encanta ainda é aquela que faço com as mãos, aquela que senta em meu colo, que se derrama na mente como semente em potencia de germinação. Aquela que se mostra e se esconde pelo contato direto e mecânico folheando cada página. Que dança olhando para mim, bate palmas e depois se espreguiça e adormece de braços abertos com o rosto colado em meu peito.
Nada se compara ao prazer de manusear um livro de papel, demorando-se em cada detalhe, sorrindo em cada descoberta, absorvendo o cheiro das palavras, ouvindo o som das páginas, sentindo a carícia do vento que emana das folhas em ligeiro desfile, o suave peso do volume alfabético e até o líquido prazer derramado em furtivas gotas que se desprendem das mãos.
Aprecio o livro que pode ser usado em qualquer tempo, de qualquer modo e em qualquer lugar, porque a energia que requer é somente a vontade. Aquele que não ocasiona gastos adicionais para seu funcionamento, pois os únicos fios que o mantém ligado são as mãos que o abrem e a mente que o absorve.
Livro em excesso não causa overdose nem intoxicação e pode ser usado sem restrição, a qualquer hora, com dosagem individualizada. Seu efeito principal é dilatar as ideias e equilibrar a emoção, mas a falta dessa vitamina pode causar anemia intelectual e problemas ao coração.
Preciso comprar um livro que, além do corpo físico, tenha a alma translúcida, perfumada, que se derrame em prazer no belo exercício da leitura, que me faça viajar, ascender no conhecimento e provoque, a cada dia, um novo amanhecimento na escalada do saber. Dentro dele, como águia dos céus e mares, quero misturar-me aos personagens, à história, à paisagem e encontrar grande prazer nessa encantadora viagem, sem reservas, pelas linhas e entrelinhas; textos e contextos; frases e paráfrases; nomes e pronomes; verbos e advérbios; linguagem de figuras e figuras de linguagem, até desembarcar numa fantástica catarse. E, ao chegar à última página, em respeitoso silêncio, observar o recolhimento das palavras enquanto o livro se fecha para adormecer na estante, até encontrar um novo colo para ser novo, límpido e vivo como antes.
Quero comprar um livro para sair do lugar.
Haverá preço para esse voo?


(Do livro: "Bazar dos Poetas - p. 140)
Ileides Muller
Enviado por Ileides Muller em 29/11/2018
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